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O Uruguai é seguro? A resposta honesta, com dados oficiais
Os homicídios subiram 6,6% no primeiro semestre de 2026 e os furtos caíram 7,5%. O retrato completo do Ministério do Interior — e o que ele diz sobre a sua rua.
Neste artigo
Há um momento que quase todo brasileiro que se muda para o Uruguai descreve, e quase sempre com a mesma expressão de surpresa: o dia em que percebe que parou de olhar o retrovisor no semáforo.
Não foi uma decisão. Foi algo que simplesmente deixou de acontecer, em algum ponto entre o terceiro e o sexto mês, sem aviso.
Esse relato é sedutor — e é exatamente por isso que ele não deveria ser o começo desta conversa. Sensação não é dado. Então vamos direto aos números que o Estado uruguaio publica, incluindo o que subiu.
Comecemos pelo número ruim
No primeiro semestre de 2026, o Uruguai registrou 195 homicídios dolosos consumados, contra 183 no mesmo período de 2025. É um aumento de 6,6%, segundo o boletim semestral do Área de Estadística y Criminología Aplicada do Ministerio del Interior, divulgado em julho de 2026.
Quem estiver procurando um país onde a violência letal esteja em queda constante deve saber disso antes de continuar lendo.
Dito isso, o número precisa de série histórica para significar alguma coisa. Os primeiros semestres recentes foram: 190 em 2022, 191 em 2023, 184 em 2024, 183 em 2025 e 195 em 2026. O pico da série foi em 2018, com 224 — o dado de 2026 está 12,9% abaixo daquele patamar.
Ou seja: não é uma escalada. É uma variação para cima dentro de um platô que dura quase cinco anos. O próprio gerente da área estatística do ministério descreveu os homicídios como “estáveis desde 2019, com exceção da pandemia”, e apontou que o aumento recente se concentrou nos meses de abril a junho.
Um dado adicional, e desconfortável: 74,9% dos homicídios envolveram arma de fogo — três em cada quatro, em tendência de alta.
Agora o número que quase ninguém noticiou
No mesmo período em que os homicídios subiram 6,6%, o total de delitos denunciados no Uruguai caiu 3,7% — de 147.949 para 142.541.
E a queda não foi difusa. Foi concentrada exatamente nos crimes que afetam o cotidiano de uma família:
| Delito | 1º sem. 2025 | 1º sem. 2026 | Variação |
|---|---|---|---|
| Roubos (rapiñas) | 8.087 | 7.762 | −4,0% |
| Furtos (hurtos) | 53.154 | 49.187 | −7,5% |
| Furto de veículos | 6.943 | 6.379 | −8,3% |
| Danos | 9.756 | 9.062 | −7,1% |
| Abigeato (furto de gado) | 427 | 341 | −20,1% |
| Estelionato e fraude digital | 13.780 | 14.035 | +1,9% |
Vale registrar a exceção com todas as letras: fraudes digitais subiram. É o único indicador patrimonial em alta, e é o tipo de crime que atravessa fronteiras — mudar de país não protege ninguém dele.
Fora isso, o quadro é claro. A probabilidade de você ser assaltado na rua, ter a casa arrombada ou o carro furtado no Uruguai caiu no último ano. Essa é a categoria de risco que molda o dia a dia de quem mora em um lugar — e é a que praticamente nunca aparece nas manchetes.
A comparação que o brasileiro realmente quer fazer
Com 369 homicídios dolosos em todo o ano de 2025 sobre uma população de 3.499.451 habitantes registrada no Censo de 2023, o Uruguai fecha o ano em torno de 10,5 homicídios por 100 mil habitantes.
O Brasil, no mesmo ano de 2025, registrou 40.775 mortes violentas intencionais — uma taxa de 19,1 por 100 mil habitantes, segundo a 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Considerando apenas homicídios dolosos, a taxa brasileira foi de 15,4.
E o Brasil vem melhorando: foi a menor taxa da série iniciada em 2012, com queda de 8,2% em um ano.
Mesmo assim, a distância permanece. Uma família que sai do Brasil para o Uruguai reduz aproximadamente à metade sua exposição estatística a morte violenta. É um dos poucos ganhos de uma mudança internacional que se pode medir com precisão.
A leitura regional confirma. No Global Peace Index 2026, do Institute for Economics & Peace, o Uruguai ficou em 43º lugar entre 163 países — o mais pacífico da América Latina e do Caribe, à frente de Chile (52º), Paraguai (64º) e Argentina (72º).
Onde o dado muda tudo: a concentração
Aqui está a informação que transforma esse artigo de curiosidade em ferramenta de decisão — e que nenhum ranking internacional consegue capturar.
A violência letal uruguaia é extraordinariamente concentrada.
No primeiro semestre de 2026, dos 195 homicídios do país inteiro, 114 ocorreram em Montevidéu e 30 em Canelones. Enquanto isso, Durazno caiu de nove para três casos e Rivera, de sete para um.
Dentro de Montevidéu, a concentração é ainda mais nítida. As seccionais policiais com maior alta foram a 18ª — região de Villa García, nas imediações das rotas 8 e 102 — que passou de 9 para 20 homicídios, e a 16ª, que abrange Ituzaingó e Flor de Maroñas, de 4 para 12. Em contrapartida, a 17ª, que inclui Casavalle, caiu de 26 para 14, e a 15ª, na Unión, de 6 para 2.
Repare no que essa lista tem — e no que ela não tem.
Ela não tem Carrasco. Não tem Pocitos, Punta Carretas, Malvín, Parque Batlle, Punta Gorda. Não tem Punta del Este, Colonia, Maldonado nem José Ignacio.
A taxa nacional é uma média entre realidades que quase não se tocam. Para uma família estrangeira que vai morar na faixa costeira de Montevidéu ou no leste do país, a taxa nacional superestima — e muito — o risco real. Não porque o dado esteja errado, mas porque ele mistura territórios que funcionam como países diferentes.
É por isso que a pergunta útil nunca é “o Uruguai é seguro”. É “qual é o perfil de segurança do bairro específico onde a minha família vai viver” — e essa resposta é pública, granular e verificável, o que já é uma vantagem em si.
Nota de responsabilidade: os dados de criminalidade citados vêm do Sistema de Gestión de Seguridad Pública e foram publicados pelo Ministerio del Interior em julho de 2026, referentes ao período de janeiro a junho de 2026. Taxas por 100 mil habitantes foram calculadas por nós a partir dos homicídios oficiais de 2025 e da população do Censo 2023. Estatísticas agregadas descrevem probabilidades, não garantem experiências individuais. Nenhum país é seguro em termos absolutos.
O que a segurança uruguaia não é
Para que este texto não vire folheto, três limites explícitos.
Não é ausência de crime. Furtos, roubos e fraudes acontecem, todos os dias, em todos os bairros. Cuidado básico continua sendo necessário — inclusive em Punta del Este na alta temporada, quando a população multiplica.
Não é imunidade ao crime organizado. O aumento do uso de arma de fogo e a concentração em zonas específicas apontam para dinâmicas de mercado ilícito que o país ainda não resolveu, e que as próprias autoridades reconhecem estar ajustando estratégia para enfrentar.
Não é permanente por decreto. Segurança é resultado de política pública, e política pública muda. O que o Uruguai oferece não é uma garantia — é um histórico longo e uma institucionalidade que torna a deterioração abrupta improvável.
O que muda, na prática, no primeiro ano
Deixando os índices de lado por um instante, a diferença que as famílias relatam raramente aparece em tabela.
É a adolescente que volta sozinha de ônibus de uma casa de amiga às dez da noite. É a bicicleta que fica no jardim. É a janela aberta no verão. É o carro comum, sem blindagem, sem película, estacionado na rua. É o restaurante com mesas na calçada onde o celular fica sobre a mesa.
Nada disso é heroico. É apenas o repertório de coisas pequenas que, em boa parte das capitais brasileiras, se deixa de fazer sem sequer registrar a perda.
E há um cálculo pouco lembrado: parte do que uma família brasileira de patrimônio gasta hoje é, na prática, um imposto privado de segurança — condomínio fechado, blindagem, transporte escolar contratado, segurança eletrônica, escolha de trajeto e de horário. Quando esse gasto deixa de ser necessário, ele não desaparece do orçamento: ele muda de destino. Esse é um dos motivos pelos quais o custo de vida uruguaio, alto em preços unitários, costuma comparar melhor do que a primeira impressão sugere — tema que abrimos em Custo de vida no Uruguai em 2026.
Perguntas frequentes
Qual é a taxa de homicídios do Uruguai?
Cerca de 10,5 por 100 mil habitantes, calculada a partir dos 369 homicídios dolosos consumados registrados pelo Ministerio del Interior em 2025 e da população do Censo de 2023. Para comparação, a taxa brasileira de mortes violentas intencionais em 2025 foi de 19,1.
Montevidéu é uma cidade segura?
Depende inteiramente da zona. Montevidéu concentra a maior parte dos homicídios do país, mas esses casos se concentram em seccionais policiais específicas do norte e do leste da cidade — não nos bairros costeiros onde vivem a maioria das famílias estrangeiras. Os dados são públicos por seccional.
A criminalidade no Uruguai está aumentando?
Depende do indicador. Os homicídios subiram 6,6% no primeiro semestre de 2026, mas seguem dentro do platô observado desde 2022 e 12,9% abaixo do pico de 2018. O total de delitos denunciados caiu 3,7%, com quedas em roubos, furtos, furto de veículos e danos. Fraudes digitais subiram 1,9%.
Punta del Este é seguro?
Punta del Este não aparece entre as zonas de concentração de violência letal do país. Como todo destino de alta temporada, exige o cuidado usual com furtos em períodos de grande fluxo de visitantes.
O Uruguai é o país mais seguro da América Latina?
É o mais pacífico da América Latina e do Caribe segundo o Global Peace Index 2026, em 43º lugar entre 163 países avaliados. “Mais pacífico” mede um conjunto amplo de indicadores — segurança, conflito e militarização — e não apenas criminalidade.
O ponto de partida
Segurança é o motivo mais citado por famílias brasileiras que consideram o Uruguai, e é também o mais mal analisado — porque quase todo mundo compara a média de um país com a experiência de uma rua.
Os dados uruguaios permitem fazer melhor. Eles são públicos, mensais, desagregados por departamento e por seccional policial, e mostram com clareza onde o risco está e onde não está. Poucas coisas dizem tanto sobre um país quanto o fato de ele publicar os próprios números ruins com esse nível de detalhe.
Se a segurança da sua família é o que está movendo essa conversa, o passo seguinte não é escolher um país — é entender qual cidade e qual bairro correspondem ao padrão de vida que vocês pretendem manter, e o que isso implica em custo, escola e rotina. É o tipo de leitura que fazemos caso a caso, e que começa por conhecer o país como ele é: comece por Como é viver no Uruguai e depois por nossa página sobre o Uruguai.
Conteúdo informativo. Não constitui aconselhamento jurídico, fiscal ou de investimento, nem garantia de segurança pessoal. Dados verificados em 20 de agosto de 2026 junto ao Ministerio del Interior do Uruguai (AECA), Instituto Nacional de Estadística, Institute for Economics & Peace e Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Estatísticas de criminalidade descrevem probabilidades agregadas e não predizem experiências individuais. Cada situação é analisada individualmente.